O Setembro Amarelo terminou, mas o sofrimento emocional não tem calendário. Durante o mês, muita gente conversou sobre saúde mental, compartilhou o número do CVV e prestou mais atenção em quem está por perto. A partir de outubro, esse cuidado continua sendo necessário, porque as pessoas continuam passando por dias difíceis.
Apoiar quem não está bem é algo que qualquer pessoa pode aprender. Você não precisa ser psicólogo nem ter as palavras perfeitas. Precisa de atenção, disposição para ouvir e informação sobre onde buscar ajuda. Este guia reúne o que fazer, o que evitar e os serviços disponíveis no Brasil.
Por que o cuidado precisa durar o ano todo
O Setembro Amarelo foi criado no Brasil em 2015, com o Centro de Valorização da Vida (CVV) entre os principais mobilizadores. O mês foi escolhido porque 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. A campanha ajudou a quebrar tabus e hoje faz parte do calendário de escolas, empresas e serviços de saúde.
Desde 2019, o país também tem a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, criada pela Lei 13.819. Ela prevê ações contínuas, envolvendo governo e sociedade. Isso reforça uma ideia simples: prevenção se faz todos os dias, com informação, acolhimento e acesso a cuidado.
Sinais que merecem atenção
Nem todo mundo que sofre demonstra de forma clara. Mudanças de comportamento costumam ser o primeiro sinal. Fique atento a:
- Isolamento, afastamento de amigos e de atividades de que a pessoa gostava
- Mudanças bruscas no sono, no apetite ou no humor
- Falas de desesperança, como “nada vai melhorar” ou “eu sou um peso”
- Aumento do consumo de álcool ou outras substâncias
- Despedidas, doação de objetos importantes ou organização de pendências sem motivo aparente
Alguns momentos da vida pedem ainda mais atenção, como perdas, separações, desemprego, dívidas, doenças, situações de violência ou bullying. Um sinal isolado não significa que a pessoa esteja em risco. Mas perceber o conjunto e puxar uma conversa pode fazer muita diferença.
Como puxar a conversa
Escolha um momento tranquilo e um lugar reservado. Pode ser um café, uma caminhada ou uma mensagem, se for assim que vocês costumam conversar. Pergunte com sinceridade: “Tenho percebido você diferente. Como você está de verdade?”.
Falar sobre sofrimento e sobre suicídio de forma cuidadosa não coloca a ideia na cabeça de ninguém. Pelo contrário, abre espaço para que a pessoa se sinta acolhida. Se você perceber que ela está muito mal, pode perguntar de forma direta e calma se ela tem pensado em tirar a própria vida. Essa pergunta costuma trazer alívio, porque mostra que ali existe alguém disposto a ouvir sem susto.
Algumas frases que ajudam a começar:
- “Estou aqui e tenho tempo para você.”
- “Você não precisa passar por isso sozinho.”
- “O que tem sido mais difícil para você nos últimos dias?”
O que ajuda
- Ouvir mais do que falar. Não é preciso ter a resposta certa.
- Validar. “Faz sentido você se sentir assim” acolhe mais do que “isso passa”.
- Evitar julgamentos e comparações com o sofrimento de outras pessoas.
- Incentivar a ajuda profissional e, se possível, ajudar a marcar a primeira consulta.
- Manter contato nos dias seguintes. Uma mensagem simples mostra que a pessoa importa.
O que evitar
- Dizer que é frescura, falta de fé ou falta de força de vontade
- Mudar de assunto ou fazer piada para aliviar o clima
- Dar sermão ou listar tudo o que a pessoa “tem de bom na vida”
- Prometer guardar segredo sobre um risco sério. Nesse caso, buscar ajuda vem antes
Quando quem sofre é um adolescente
Com filhos adolescentes, a mudança de comportamento pode ser confundida com “coisa da idade”. Fique atento a queda brusca nas notas, isolamento no quarto por longos períodos, perda de amigos, irritação constante ou sinais de bullying, inclusive nas redes sociais. Converse sem interrogatório, em momentos do dia a dia, como no carro ou durante uma refeição. Mostre que ele pode contar com você mesmo quando errar. Se a preocupação continuar, procure a escola e um psicólogo que atenda adolescentes.
Um exemplo do dia a dia
A Júlia, um exemplo fictício, percebeu que o colega de trabalho parou de almoçar com a equipe, chegava com cara de quem não dormiu e dizia que “tanto faz”. Em vez de ignorar, ela o chamou para um café e perguntou como ele estava. Ele contou que vinha muito triste desde a separação. Júlia ouviu, disse que fazia sentido ele estar assim e ofereceu ajuda para procurar um psicólogo. Na semana seguinte, mandou mensagem para saber como tinha sido a consulta. Foram gestos simples, que abriram caminho para o cuidado.
Se a situação for urgente
Se a pessoa disser que pensa em tirar a própria vida e parecer em risco imediato:
- Não a deixe sozinha
- Mantenha a calma e continue a conversa
- Afaste do alcance objetos e medicamentos que possam causar dano
- Ligue para o SAMU (192) ou leve a pessoa a um pronto-socorro
- Avise alguém de confiança da família ou da rede de apoio
Onde buscar ajuda
- CVV – Centro de Valorização da Vida: ligue 188, gratuito, 24 horas, ou converse pelo chat em cvv.org.br. O atendimento é feito por voluntários treinados, com sigilo.
- CAPS e Unidades Básicas de Saúde do SUS na sua cidade
- SAMU 192 ou pronto-socorro em situação de risco imediato
Psicólogos e psiquiatras são os profissionais indicados para o acompanhamento contínuo. O psicólogo conduz a psicoterapia. O psiquiatra avalia a necessidade de tratamento com medicamentos, que só devem ser usados com prescrição e acompanhamento. Muitas vezes os dois trabalham juntos.
Cuide de você também
Apoiar alguém que sofre cansa. É normal sentir medo, tristeza ou impotência. Você não é responsável por resolver tudo sozinho. Divida o cuidado com outras pessoas, respeite seus limites e, se sentir necessidade, procure apoio psicológico para você também.
Algumas atitudes ajudam a manter o fôlego: combinar com outros amigos ou familiares quem vai estar presente em cada momento, reservar um tempo para descansar e fazer algo de que você gosta, e conversar com alguém sobre o que você está sentindo. Cuidar de si também é uma forma de continuar cuidando do outro.
Perguntas frequentes
Falar sobre suicídio pode incentivar alguém?
Não. Conversar de forma cuidadosa e sem julgamento abre espaço para a pessoa pedir ajuda. O que se deve evitar é tratar o tema de forma sensacionalista.
O CVV é gratuito?
Sim. O CVV atende pelo telefone 188, sem custo de ligação, 24 horas por dia, e também por chat no site cvv.org.br.
Onde conseguir psicólogo pelo SUS?
Procure a Unidade Básica de Saúde do seu bairro. A equipe avalia o caso e pode encaminhar para psicologia ou para um CAPS.
O que fazer se a pessoa não quer ajuda?
Continue presente, sem pressionar. Ofereça opções, como ir junto à primeira consulta. Se houver risco imediato, ligue 192.
Por que o Setembro Amarelo é em setembro?
Porque 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. A campanha brasileira começou em 2015.
Cuidado o ano inteiro
Se você percebeu que precisa de apoio, ou quer ajudar alguém a dar o primeiro passo, no Cuida Saúde você encontra psicólogos e psiquiatras verificados, com atendimento online ou presencial. Se o sofrimento estiver intenso agora, ligue para o CVV no 188.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Em caso de emergência, ligue 192 (SAMU).
