Bets proibidas no Brasil: e quem não consegue parar de apostar?

Por Cuida Saúde1 de outubro de 20268 min de leitura de leitura
Bets proibidas no Brasil: e quem não consegue parar de apostar?

No dia 25 de setembro de 2026, o governo federal publicou a Medida Provisória 1.394/2026, que proíbe as apostas de quota fixa em todo o Brasil. Isso inclui as apostas esportivas e os jogos online, como o “tigrinho”, além da publicidade e dos patrocínios. As loterias tradicionais continuam permitidas.

A notícia trouxe alívio para muitas famílias. Mas para quem tem dificuldade de parar de apostar, ela também pode trazer ansiedade, irritação e a tentação de procurar outros caminhos. Um levantamento da Unifesp estima que cerca de 11 milhões de pessoas no país podem ter algum grau de uso problemático de apostas. O vício não sai do ar junto com os sites. Este guia explica o que muda, quais sinais observar e onde buscar ajuda, inclusive de graça.

O que muda com a proibição

  • Desde 25 de setembro: novos depósitos estão proibidos.
  • Até 5 de outubro, às 23h59: prazo para pedir a retirada do saldo que você ainda tem nas plataformas.
  • A partir de 6 de outubro: sites e aplicativos de apostas devem sair do ar. Bancos não podem mais processar pagamentos para bets, inclusive por Pix.
  • Entre 9 e 14 de outubro: quem não sacar recebe o saldo de volta pelo banco que operava com a empresa de apostas.
  • 25 de outubro: as autorizações das empresas deixam de valer.

Uma medida provisória vale como lei, mas precisa ser aprovada pelo Congresso em até 120 dias. As empresas do setor também recorreram ao Supremo Tribunal Federal. Por isso, as regras ainda podem mudar. Acompanhe as informações pelos canais oficiais do governo.

Se você vai receber um saldo de volta, pense antes no destino desse dinheiro. Usar o valor para pagar contas atrasadas ou reduzir dívidas é um passo importante na recuperação.

A proibição não acaba com o vício

Tirar as bets do ar diminui o acesso e a exposição à propaganda, o que ajuda muito. Mas quem desenvolveu uma dependência pode sentir, nas primeiras semanas, algo parecido com uma abstinência:

  • Vontade intensa de apostar, principalmente em dia de jogo ou de pagamento
  • Irritação, inquietação e dificuldade para dormir
  • Ansiedade, tristeza ou sensação de vazio
  • Pensamentos repetidos sobre “recuperar” o que foi perdido

Esses sintomas costumam diminuir com o tempo e com apoio. Eles não são motivo de vergonha. São sinais de que vale procurar ajuda profissional agora.

Cuidado com sites ilegais

Quando as plataformas autorizadas saem do ar, sites sem autorização continuam tentando atrair apostadores, muitas vezes por redes sociais, grupos de mensagem e links patrocinados. Nesses sites não há nenhuma proteção: o dinheiro pode não ser devolvido, os dados pessoais podem ser usados em golpes e não existe limite de gastos. Trocar a bet regulada por uma ilegal mantém o vício e aumenta o risco.

Fique atento também à troca por outras formas de jogo, como loterias, rifas on-line ou jogo do bicho. Se a vontade de apostar só mudou de lugar, o problema continua.

Jogo compulsivo é uma condição de saúde

O transtorno do jogo é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde, na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), como um transtorno de comportamento aditivo. Ele atua no sistema de recompensa do cérebro de forma parecida com outras dependências. Não é falta de força de vontade nem falha de caráter.

Entender isso muda a forma de encarar o problema. Quem tem dificuldade de parar precisa de avaliação e tratamento, como qualquer pessoa com uma condição de saúde. Sermão e cobrança costumam aumentar a vergonha e fazer a pessoa esconder ainda mais.

Por que as bets prendem tanto

Algumas características das apostas online facilitam a perda de controle:

  • Acesso o tempo todo: a plataforma está no bolso, 24 horas por dia, inclusive de madrugada.
  • Resultado rápido: jogos e apostas ao vivo dão resposta em segundos, o que estimula repetir.
  • Dinheiro que parece de mentira: depositar por Pix e ver um saldo na tela afasta a sensação de estar gastando o dinheiro do mês.
  • A sensação de quase ganhar: perder por pouco dá a impressão de que a vitória está perto, e a pessoa aposta de novo.
  • Bônus e propaganda: ofertas e promoções chamam de volta quem estava tentando se afastar.

Sinais de alerta

O problema raramente aparece de uma vez. Ele cresce aos poucos, e muitas vezes a pessoa é a última a perceber. Fique atento se você ou alguém próximo começa a:

  • Pensar em apostas o tempo todo
  • Precisar apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma emoção
  • Tentar recuperar o dinheiro perdido com novas apostas
  • Mentir para a família sobre quanto aposta ou perde
  • Deixar de pagar contas, pegar empréstimos ou vender bens para apostar
  • Ficar irritado, ansioso ou inquieto ao tentar parar
  • Usar as apostas para fugir de problemas ou aliviar a tristeza
  • Ter prejuízos no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos

Se você se identificou com alguns desses itens, vale procurar ajuda. Você não precisa esperar a situação ficar grave para começar um tratamento. Quanto antes, menor o prejuízo financeiro e emocional.

Um exemplo do dia a dia

Pense no Carlos, um exemplo fictício, mas comum. Ele começou apostando R$ 20 nos jogos do fim de semana. Depois passou a apostar todos os dias, até em campeonatos que nem acompanhava. Quando perdeu parte do salário, pegou um empréstimo para “recuperar” o valor. Escondeu da esposa, passou a dormir mal e a ficar irritado com os filhos. Nenhuma dessas etapas pareceu grave na hora. Juntas, mostram um padrão claro de perda de controle.

Como a aposta afeta a saúde e a família

O jogo compulsivo está associado a ansiedade, depressão, insônia, conflitos familiares e endividamento. A vergonha e o medo de contar para alguém costumam aumentar o isolamento. A dívida vira mais um motivo de estresse, e o estresse vira mais um motivo para apostar. É um ciclo difícil de quebrar sozinho.

Em casos graves, o risco de ideação suicida aumenta. Se você ou alguém próximo está em sofrimento intenso, ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24 horas) ou use o chat em cvv.org.br. Em risco imediato, ligue 192 (SAMU) ou vá a um pronto-socorro.

Se quem aposta é alguém que você ama

Ver um familiar perder o controle gera raiva, medo e cansaço. Algumas atitudes ajudam a conversa a dar certo:

  • Escolha um momento calmo, longe de uma briga por dinheiro.
  • Fale do que você observa, sem rótulos: “Percebi que você anda preocupado com dinheiro e dormindo mal. Quero te ajudar”.
  • Evite quitar dívidas de jogo sem um plano. Pagar a conta sem tratamento alivia a pressão por um tempo, mas não interrompe o ciclo.
  • Proteja o orçamento da casa, separando o dinheiro das despesas essenciais.
  • Cuide de você também. A família sofre junto e pode buscar apoio psicológico, mesmo que a pessoa ainda não aceite ajuda.

Tratamento funciona

O jogo compulsivo tem tratamento, e muita gente retoma o controle da vida financeira e das relações. Os caminhos mais comuns são:

  • Psicoterapia: a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) tem boas evidências no tratamento do jogo compulsivo. Ela ajuda a identificar gatilhos, rever pensamentos como “agora eu recupero” e criar estratégias para os momentos de vontade.
  • Psiquiatria: avalia ansiedade, depressão e outras condições associadas. Remédio só com prescrição e acompanhamento médico.
  • Apoio em grupo: grupos como Jogadores Anônimos ajudam a quebrar o isolamento e a trocar experiências.
  • SUS: as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os CAPS atendem pessoas com dependência de jogos.

Teleatendimento gratuito pelo SUS

Desde agosto de 2026, o SUS oferece teleatendimento em saúde mental para quem tem problemas com jogos e apostas. O acesso é pelo aplicativo ou site Meu SUS Digital, com a sua conta gov.br. Você escolhe o serviço “Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Quem Aposta”, responde a um autoteste e faz a solicitação. Familiares de apostadores também podem pedir atendimento. Com a proibição, o Ministério da Saúde anunciou que vai reforçar esse atendimento para quem tiver dificuldade com a mudança.

Medidas práticas para se proteger

Atitudes que ajudam

  • Remova os aplicativos e bloqueie sites de apostas no celular.
  • Peça a alguém de confiança para ajudar a controlar o acesso ao dinheiro por um período.
  • Anote os momentos em que a vontade aparece, como tédio, briga ou dia de pagamento, e planeje outra atividade para eles.
  • Organize as dívidas com calma, com ajuda do banco ou de um serviço de orientação financeira.
  • Bloqueie o recebimento de mensagens e anúncios de apostas e saia de grupos que divulgam links de jogo.

Se um adolescente da sua casa apostava, a proibição é uma boa oportunidade para conversar sem julgamento e, se for preciso, procurar orientação profissional.

Quem procurar

O psicólogo conduz a psicoterapia. O psiquiatra avalia se há outras condições, como depressão ou ansiedade, e decide se é preciso medicação. Muitas vezes os dois trabalham juntos. No SUS, a UBS do seu bairro também pode ser a porta de entrada.

Perguntas frequentes

Vício em apostas tem cura?

O transtorno do jogo tem tratamento, e muitas pessoas ficam longos períodos sem apostar e reorganizam a vida. Como em outras dependências, o acompanhamento contínuo ajuda a prevenir recaídas.

Com as bets proibidas, ainda preciso de tratamento?

Se você tinha sinais de jogo compulsivo, sim. A proibição reduz o acesso, mas não trata a dependência. A vontade de apostar, a ansiedade e as dívidas continuam, e há risco de migrar para sites ilegais ou outras formas de jogo.

O que acontece com o meu saldo nas bets?

Você pode pedir a retirada até 5 de outubro, às 23h59. Quem não sacar recebe o valor de volta pelo banco entre 9 e 14 de outubro, segundo o cronograma do governo.

O SUS trata vício em apostas?

Sim. Você pode procurar uma UBS ou um CAPS, ou pedir teleatendimento gratuito pelo Meu SUS Digital.

Terapia online funciona para quem aposta?

Pode ser uma ótima opção. O atendimento psicológico online é regulamentado pelo Conselho Federal de Psicologia, segue as mesmas regras de sigilo e ajuda quem sente vergonha de ir a um consultório.

A família pode buscar ajuda mesmo se a pessoa não quiser tratamento?

Sim. Familiares podem fazer terapia para lidar com o impacto do jogo e aprender a apoiar sem reforçar o problema. O teleatendimento do SUS também aceita pedidos de familiares.

Dê o primeiro passo

Pedir ajuda é um sinal de cuidado com você e com quem está ao seu lado. No Cuida Saúde você encontra psicólogos e psiquiatras verificados, com experiência em dependências, atendimento online ou presencial e sigilo garantido. Este é um bom momento para começar. Compare perfis, leia avaliações e agende a sua primeira consulta.


Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Em caso de emergência, ligue 192 (SAMU).

Sobre o Cuida Saúde

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Fontes e Referências

  1. Presidência da República – Medida Provisória nº 1.394/2026, 25/09/2026
  2. Agência Gov – Bets e jogos online estão proibidos: confira o cronograma das novas medidas, set/2026
  3. Senado Notícias – MP proíbe bets e determina encerramento das operações em 30 dias, 28/09/2026
  4. Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – Levantamento sobre apostas e uso problemático no Brasil
  5. Ministério da Saúde / Câmara dos Deputados – Aumento dos atendimentos de saúde mental no SUS por vício em apostas
  6. Organização Mundial da Saúde – CID-11, 6C50 Transtorno do jogo
  7. Ministério da Fazenda – SUS oferece teleatendimento a quem enfrenta problemas de saúde mental causados por apostas, 2026
  8. Centro de Valorização da Vida (CVV) – cvv.org.br